O grisalho de seis tios – e como seria se fossem tias

Após a conversa com meu pai, fiquei curiosa para saber se outros homens da minha família se incomodavam com seus fios brancos. Eu já sabia que meu pai havia tido sua fase de tingir os fios. E os irmãos dele? Tenho seis tios, então pensei que poderiam ser uma boa amostra para uma pesquisa informal. Comecei a ligar para eles, um por um, e fiquei intrigada com as respostas.

Meu tio Duca já começou falando que nunca teve medo ou insegurança de mostrar o cabelo branco. “Nunca pensei em pintar”, ele disse. “Eu era jovem quando esses fios começaram a aparecer; tinha uns 25 anos. Até achava legal.” Hoje, ele está com 49. É o irmão mais novo do meu pai.

Meus avós tiveram oito filhos homens e duas mulheres. Os dez herdaram a genética do lado paterno e encontraram os primeiros fios brancos antes dos trinta e poucos anos.

Quando fiquei curiosa para saber se os homens se incomodavam com os cabelos brancos, logo pensei nesses tios. Como são vários, será que teriam diferentes pontos de vista?

Uma matéria do Los Angeles Times publicada em 2012 mostrou que o percentual de homens dos Estados Unidos que tingem os cabelos está aumentando. Segundo os dados da pesquisa da Multi-sponsor Surveys, em 1999, eram apenas 2%. Uma década depois, em 2010, já eram 7%. Olhando apenas para os que têm entre 50 e 64 anos, o percentual ficava em 11%.

Não encontrei dados recentes. Fico imaginando se o número segue aumentando. A matéria também apresenta motivos para a tendência: alguns homens querem se manter competitivos no mercado de trabalho que favorece as gerações mais novas; outros querem acompanhar as esposas mais jovens. De um jeito ou de outro, eles buscam a juventude.

“Não acho que eu fique mais velho por conta do cabelo branco”, me disse outro tio, Nando, de 65 anos. “Se eu pintasse de preto, lógico que o meu rosto não seria de 35 anos. Eu precisaria fazer plástica; a tinta não tira as rugas.” Além disso, ele acredita que sua versão de cabelo tingido seria muito artificial. “Deixaria de ser eu.”

Um ano e pouco mais velho, tio Chico gostou quando descobriu os primeiros fios brancos, aos 31 anos. A namorada da época quis arrancar, mas ele se opôs. “De maneira nenhuma!”, retrucou, dando as boas-vindas aos grisalhos. “Eu tinha cara de guri. O cabelo branco deu um aspecto de senhor. Eu gostava.”

Quase duas décadas depois, porém, apareceu uma vontade de pintar. Um amigo comprou uma caixinha de tintura e o convidou a tingir também. “Entrei na vibe e comprei a tinta”, diz Chico. “Mas, assim que vi como o cabelo dele ficou, abortei a ideia. Parecia peruca. Nós nos acostumamos a ver tinta em mulheres. Mas em homens… Não combina com o rosto. E não acho que rejuvenesça.”

Uma história parecida aconteceu com tio Xande, de 53 anos. Os primeiros fios brancos apareceram por volta dos 23. Por ser o nono irmão, ele via o cabelo dos mais velhos e sabia que o grisalho chegaria cedo. “Encarei com a maior naturalidade”, lembrou. “Nunca me preocupei com isso.”

Após alguns anos, entretanto, a dúvida também surgiu. Ele decidiu testar um xampu tonalizante — depois de uma semana, não percebeu diferença. “Na mesma época, fui ao meu contador e vi que ele tinha cabelo branco”, contou Xande. “Só que estava azul. Olhei e pensei: ‘Eu não vou mais botar isso na minha cabeça!’.”

Tio Caqui também já buscou formas de disfarçar os fios brancos. Os primeiros apareceram aos 18 anos. Hoje, ele tem 60. Na virada dos 22 para os 23, porém, após a morte de um dos irmãos, o grisalho acelerou. “Levei um susto”, ele disse. “Eu estava acostumado a ser tratado como adolescente e, de repente, fui chamado de senhor por uma pessoa mais velha do que eu.”

Por volta dos 34, ele passou a usar Grecin 2000, uma loção que escurece os fios grisalhos. “Tinha que aplicar a cada quinze dias”, me contou. “O cabelo ficava legal, mas aí a raiz branca começava a aparecer. Era a coisa mais feia. Além disso, eu estava ficando dependente de um produto químico. Insisti por quase um ano, mas não deu para aguentar.”

Mais recentemente, Caqui parou de se reconhecer no visual típico da sua profissão de engenheiro: cabelo curto, barba feita, sapato, camisa para dentro da calça e cinto. “Cheguei à conclusão de que era uma imposição da sociedade. Quando criança, meu cabelo era encaracolado. Será que voltaria a ser assim?”

O cabelo cresceu e, sim, enrolou. “Algumas pessoas que não me viam há mais tempo se sentiram agredidas”, lembrou Caqui. “Questionaram se eu estava saindo dos trilhos.” Perguntei se ele estava feliz assim. “Ahh, Camila. Você sabe que me olho no espelho e agora me reconheço? Sei que estou inteiro.”

Eu sorri na hora, e sorri muitas outras vezes durante essas conversas com os tios. Falamos sobre cabelo, mas também sobre envelhecimento. Eles chegaram ao mundo antes de mim. Já tiveram mais tempo para pensar sobre o que significa ver os anos passando. Enquanto escuto a visão deles, torço para aprender a simplificar a vida logo.

“O envelhecimento, para mim, é uma situação completamente natural”, disse Duca. “Assim como as questões fisiológicas, como a fome, a sede… Me sinto feliz por estar envelhecendo e não ter morrido ainda!”

O grisalho faz parte do pacote da idade, mas entrou na vida deles de mansinho. Sem corrida maluca para o salão de beleza. Sem tantas paranoias. “Nunca escondi, nunca pintei”, afirmou convicto meu tio Paulo, de 69 anos. “Dos vinte e poucos até hoje, com o cabelo cada vez mais branco!”

E se fosse o contrário? E se eles fossem mulheres? Ao desligar o telefone com o último tio, fiquei com vontade de reler as anotações. Dessa vez, mentalmente troquei as palavras masculinas por femininas. Em vez de tios, fiz de conta que eram tias. Gostei do resultado. Reescrevi o texto fazendo essas mudanças. Não é que as respostas deles parecem até um manifesto para nós, mulheres?

O que vem a seguir é uma ficção, que se passa em um mundo não tão distante… Assim espero.


Minha tia Duda já começou falando que nunca teve medo ou insegurança de mostrar o cabelo branco. “Nunca pensei em pintar”, ela disse. “Eu era jovem quando esses fios começaram a aparecer; tinha uns 25 anos. Até achava legal.” Hoje, ela está com 49. É a irmã mais nova do meu pai.

“Não acho que eu fique mais velha por conta do cabelo branco”, me disse outra tia, Nanda, de 65 anos. “Se eu pintasse de preto, lógico que o meu rosto não seria de 35 anos. Eu precisaria fazer plástica; a tinta não tira as rugas.” Além disso, ela acredita que sua versão de cabelo tingido seria muito artificial. “Deixaria de ser eu.”

Um ano e pouco mais velha, tia Francisca gostou quando descobriu os primeiros fios brancos, aos 31 anos. O namorado da época quis arrancar, mas ela se opôs. “De maneira nenhuma!”, retrucou, dando as boas-vindas aos grisalhos. “Eu tinha cara de guria. O cabelo branco deu um aspecto de senhora. Eu gostava.”

Quase duas décadas depois, porém, apareceu uma vontade de pintar. Uma amiga comprou uma caixinha de tintura de cabelo e a convidou a tingir também. “Entrei na vibe e comprei a tinta”, disse Francisca. “Mas, assim que vi como o cabelo dela ficou, abortei a ideia. Parecia peruca. Nós nos acostumamos a ver tinta em homens. Mas em mulheres… Não combina com o rosto. E não acho que rejuvenesça.”

Uma história parecida aconteceu com a tia Alexandra, de 53 anos. Os primeiros fios brancos apareceram por volta dos 23. Por ser a nona irmã, ela via o cabelo das mais velhas e sabia que o grisalho chegaria cedo. “Encarei com a maior naturalidade”, lembrou. “Nunca me preocupei com isso.”

Após alguns anos, entretanto, a dúvida também surgiu. Ela decidiu testar um xampu tonalizante — depois de uma semana, não percebeu diferença. “Na mesma época, fui à minha contadora e vi que ela tinha cabelo branco”, contou Alexandra. “Só que estava azul. Olhei e pensei: ‘Eu não vou mais botar isso na minha cabeça!’.”

Tia Cacá também já buscou formas de disfarçar os fios brancos. Os primeiros apareceram aos 18. Hoje, ela tem 61. Na virada dos 22 para os 23, porém, após a morte de uma das irmãs, o grisalho acelerou. “Levei um susto”, ela disse. “Eu estava acostumada a ser tratada como adolescente e, de repente, fui chamada de senhora por uma pessoa mais velha do que eu.”

Por volta dos 34, ela passou a usar Grecin 2000, uma loção que escurece os fios grisalhos. “Tinha que aplicar a cada quinze dias”, me contou. “O cabelo ficava legal, mas aí a raiz branca começava a aparecer. Era a coisa mais feia. Além disso, eu estava ficando dependente de um produto químico. Insisti por quase um ano, mas não deu para aguentar.”

Falei com as minhas tias sobre cabelo, mas também sobre envelhecimento. O grisalho faz parte do pacote da idade. Mas entrou na vida delas de mansinho. Sem corrida maluca para o salão de beleza. Sem tantas paranoias. “Nunca escondi, nunca pintei”, afirmou convicta minha tia Paula, de 69 anos. “Dos vinte e poucos até hoje, com o cabelo cada vez mais branco!”

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