Aprendi e me diverti enquanto estudava sobre tintura para os cabelos. Talvez não seja educado da minha parte rir do que faziam nossos ancestrais, mas um trecho do Livro do Cabelo, escrito pela jornalista Leusa Araujo, revela um pouco das invenções mirabolantes que já existiram para mudar a cor dos nossos fios.
As táticas utilizadas para tingir o cabelo iam além da tintura à base de chumbo usada na época do Império Romano — aquela que o meu pai me contou. Como descobriu Leusa durante sua pesquisa, nos últimos cinco mil anos os cabelos já receberam “henna vegetal egípcia, indiana e marroquina, corantes vegetais, ouro em pó e até sangue de gato preto”.
O livro também conta que os maiores estragos ao cabelo aconteciam quando as pessoas queriam descolori-lo. A lista de opções incluía chá de casca de cebola, urina de vaca, suco de limão seguido de exposição ao sol e ruibarbo (um vegetal do qual eu nunca tinha ouvido falar).
Um artigo publicado no jornal da Academia Americana de Dermatologia, cujo título é The art of hair coloring — A history (em uma tradução livre, A arte de colorir os cabelos — Uma história), acrescenta mais ingredientes inusitados. Na Grécia antiga, por exemplo, as pessoas clareavam os cabelos com uma solução de potássio e pomada de pétalas de flores amarelas e pólen.
Nesse mesmo artigo, descobri que o livro The Ladies Dictionary (em uma tradução livre, O dicionário das mulheres), publicado em 1694, também ensinava como tingir o cabelo. Para deixá-lo preto, bastava uma mistura de sabugueiro e vinho; para o ruivo, um derivado de chumbo; e para o loiro, limão e cúrcuma.
A tintura que existe hoje só começou a virar realidade quando o químico alemão August Hofmann reportou pela primeira vez as propriedades do composto para-fenilenodiamina (PPD). Isso aconteceu há bastante tempo, em 1863, e até hoje essa substância química é a base das tinturas permanentes de cabelo.
Mas foi somente em 1907, pouco mais de cem anos atrás, que o engenheiro químico francês Eugène Schueller aproveitou o PPD para desenvolver a primeira coloração capilar sintética, chamada “L’Auréale”.
Dois anos depois, ele abriu uma empresa para comercializar o seu produto, batizada de Sociedade Francesa de Tinturas Inofensivas para os Cabelos. Em 1939, o nome da empresa mudou para uma que conhecemos bastante: L’Oréal. Achei interessante descobrir que uma das líderes globais em cosméticos começou justamente com tinturas “inofensivas” de cabelo.
Mas o primeiro episódio que descobri sobre a história da coloração capilar não foi nenhum desses que contei até agora. Um dos momentos que mais moldou o comportamento da sociedade aconteceu nos anos 1950, quando a publicitária Shirley Polykoff criou um anúncio que foi o pontapé para transformar a indústria da tintura em bilionária.
Naquela época, a cor artificial dos cabelos não era bem-vista entre as mulheres belas, recatadas e do lar. Aquelas que tingiam o faziam em segredo. Afinal, só atrizes, modelos e garotas de programa pintavam.
Essa crença começou a mudar com as propagandas de Miss Clairol, uma tintura que prometia uma cor tão natural que somente o seu cabeleireiro saberia a verdade. O slogan criado por Shirley virou um clássico: “Does she… or doesn’t she?”, algo como “Ela pinta… ou não pinta?”.
Anúncio publicado na Life Magazine e reproduzido em flickr SenseiAlan (CC – BY 2.0) .
Alguns números nos ajudam a entender o sucesso dessa publicidade. De acordo com uma matéria publicada no jornal The New York Times, uma pesquisa feita pela Clairol antes do anúncio descobriu que, nos anos 1950, apenas 7% das mulheres dos Estados Unidos tingiam o cabelo. Uma década depois, quando repetiram o estudo, quase 50% das mulheres daquele país estavam tingindo.
Ainda segundo a matéria, as vendas de tinturas, matizes e enxágues também cresceram durante a década seguinte, passando de 25 milhões de dólares para 200 milhões de dólares por ano, sendo que a Clairol respondia por quase a metade desse total. Quando essa matéria do The New York Times foi publicada, em 1998, as vendas já somavam mais de 1 bilhão de dólares.
Fiquei curiosa para saber qual era a cifra nos dias atuais. Entre os relatórios feitos por empresas de consultoria e pesquisa, um deles estimava que o mercado global de coloração para cabelos movimentou cerca de 19,3 bilhões de dólares em 2021, com previsão de chegar a 42,1 bilhões de dólares em 2031.
Grande parte desse mercado é feminino, mas os homens também estão começando a gostar da ideia. Como diz o relatório financeiro de 2021 divulgado pela L’Oréal, “a cor do cabelo não é mais um domínio exclusivo das mulheres”. O texto celebra a notícia com um animado ponto de exclamação: “Mais e mais homens estão tingindo seus cabelos!”.
Além deles, pessoas com mais de 60 anos também estão no foco das marcas de cosméticos. Afinal, segundo o IBGE, 25,5% da população brasileira deverá ter mais de 65 anos em 2060. Em 2018, esse percentual era de 9,2%. Ou seja, há muitos novos consumidores para produtos capilares, praticamente todos com cabelos brancos.
O Caderno de Tendências para 2019 e 2020, feito pelo Sebrae em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), também aborda o maior interesse nos grisalhos e o lançamento de produtos para iluminar, fortalecer e tratar os brancos.
Em um tópico voltado aos salões de beleza, o estudo cita uma pesquisa da consultoria REDS feita com mulheres acima de 55 anos: 80% delas usam produtos para cuidados pessoais regularmente e 43% relatam que o cabelo é a parte do corpo que mais as preocupa. “A lista de desejos é grande, assim como são promissoras as oportunidades”, destaca o material.
As oportunidades existem porque, afinal, um dos desafios dos salões de beleza é oferecer mais do que apenas um corte de cabelo para as clientes naturalmente grisalhas, como enaltece a descrição de um produto lançado pela Wella no final de 2021, até então não disponível no Brasil. O nome do produto é True Grey (em uma tradução livre, seria algo como Grisalho Verdadeiro). Ele é tão verdadeiro que a descrição diz que são sete tons diferentes de cinza que imitam o grisalho natural…
Quando vi a notícia do lançamento, fiquei um tanto obcecada. No meio da minha transição, querendo dar fim às pontas de cabelo tingido, eu não conseguia acreditar que uma marca estava lançando um tonalizante oxidativo para pessoas que tinham decidido não usar mais essas colorações.
Passei horas na internet tentando entender o que exatamente era o produto. Na lista de ingredientes, havia seis tipos de colorantes para cabelo e um agente oxidante, que era o peróxido de hidrogênio, mais conhecido como água oxigenada. Talvez seja uma gradação bem baixinha, pensei. Ainda assim, o tonalizante não poderia ser tão suave como água pura,como sugeria um dos materiais de divulgação do produto.
Fui tão longe na busca que encontrei um site da Wella com treinamentos voltados aos profissionais de salões de beleza. Assisti às aulas disponíveis sobre o True Grey, em que Christopher e Julie, dois especialistas em coloração, apresentavam o produto, ensinavam como aplicá-lo e como conversar com as clientes grisalhas.
“Cerca de 30% dos nossos clientes simplesmente não querem mais se comprometer em colorir seus cabelos e preferem seus cabelos grisalhos naturais”, disse Christopher, emendando a seguinte pergunta: “Você acha desafiador oferecer novos tratamentos para esses clientes?”
A dupla então se revezava para orientar sobre a melhor forma de ter uma conversa com essas clientes cujas expectativas e desejos são completamente diferentes das que tingem os cabelos. Sei que o curso é voltado para profissionais e não para possíveis clientes como eu, mas é claro que me imaginei sentada na cadeira de alguém que ouviu essas orientações:
Comece perguntando sobre o cabelo da cliente: “Eu vejo que o seu cabelo é naturalmente grisalho. Uau, é lindo! Me conte desde quando você o deixou grisalho”. Deixe a cliente contar a sua história. Ela tem familiares com o mesmo tipo de cabelo? E, para que essa conversa especial continue avançando, lembre-se de ouvir — e ouvir bem. Aproveite esse momento com ela. Você consegue dar seguimento em alguma área que ela gostaria de melhorar? Áreas que talvez ela tenha mencionado sobre o cabelo de outras pessoas, de repente a textura ou o tom do grisalho? Como ela se sente sobre o próprio cabelo? Depois de ouvir, é hora de adaptar. Claro, você é o especialista em cabelo e vê tanto potencial. Você até vê coisas que a sua cliente talvez nem saiba que existam! É por isso que é importante não apenas falar, mas garantir que a sua cliente seja a heroína da jornada do brilho prateado. Deixe que ela fale suas necessidades e adapte o tratamento aos seus desejos. Quando isso estiver pronto, é hora de aconselhá-la no tratamento para o brilho perfeito do grisalho.
Me diverti assistindo aos vídeos — até fiz o teste final e baixei meu certificado de conclusão. Ainda assim, entendo perfeitamente que o mercado precise se reinventar. Se 30% das clientes não querem mais colorir os cabelos, como disse o especialista em coloração, é natural que tanto a indústria quanto os salões de beleza busquem novas opções de produtos e de receita.
Só no Brasil, estamos falando de cerca de 811 mil estabelecimentos registrados como “cabeleireiros, manicure e pedicure”, segundo os dados que encontrei na plataforma Mapa de Empresas, do Ministério da Economia. Em todo o mundo, segundo o Livro do Cabelo,são 10 milhões de salões.
Também nesse livro li uma frase que resume muito esse movimento de constantes invenções: “cada inovação da indústria logo se transforma em necessidade para a vida das pessoas comuns, em seus rituais de beleza diários”.
Faz milênios que essa história vai se transformando e se adaptando — e nós vamos atrás, às vezes conscientes das nossas escolhas, outras nem tanto. Hoje não considero tingir o cabelo de novo, mas agora tenho mais uma hipótese para levar em consideração: será que algum dia vou querer tonalizar o meu cabelo com a cor do grisalho perfeito e “verdadeiro”?