Às vésperas do Natal de 2021, eu estava no salão de beleza quando duas mulheres ao meu lado começaram a conversar. Uma esperava a tinta agir; outra aguardava o descolorante clarear os fios que estavam envoltos em papelotes.
“Cabelo branco até fica bom em algumas mulheres, mas precisa se arrumar, passar um batom. Olha essa aqui”, uma delas disse, enquanto apontava para uma fotografia no celular.
“Minha mãe disse que queria parar de pintar”, comentou a outra, “mas falei para ela não fazer isso. Vai ficar com muita cara de velha”.
“Quanto tempo será que demora até todo o cabelo branco crescer?”, perguntou a primeira.
“A melhor forma de fazer a transição é descolorir tudo”, disse a outra. “Assim, o cabelo já fica todo branco e cresce uniforme.”
A conversa durou alguns minutos e transitou por vários estereótipos. Achei engraçado perceber que elas repararam no meu cabelo metade branco, metade tingido, mas não cogitaram pedir a minha opinião.
Eu poderia responder quanto tempo a transição levava. Poderia incentivar a filha a deixar a mãe correr o risco de gostar dos brancos. Poderia contar que a descoloração funciona para algumas mulheres, mas não para todas.
Preferi não me meter na conversa. Lembrei que a minha opinião já foi parecida com a delas. É provável que um dia eu tenha dito aquelas palavras. Precisei de tempo para viver a transição e pesquisar sobre cabelos brancos até, enfim, mudar de perspectiva.
Minha mudança de opinião me lembrou uma frase que li alguns dias atrás. Não tem nada a ver com cabelo branco, mas tem muito a ver com o que sinto agora. “Terminei este livro diferente de quando o comecei”, escreveu a artista Jenny Odell em seu livro Resista: Não faça nada.
Também terminei este livro de um jeito diferente de quando o comecei. É possível que muitas pessoas se sintam assim no final de um longo processo. De tão diferente, tive até dificuldade de concluí-lo. Às vezes me perguntava: Por que mesmo comecei a escrever sobre isso?
Então me lembrava de que, enquanto meus fios grisalhos empurravam os tingidos para as pontas, sem querer fui aprendendo a me importar menos com a opinião dos outros, a julgar menos, a me cobrar menos, a me amar mais e a ter menos medo de envelhecer. Hoje, com os meus cabelos brancos, sou mais feliz.
Se quem me conhece pensa que ainda julgo, me importo e me cobro, veja só… Já foi pior.
Mesmo assim, às vezes ainda estranho o que aconteceu dentro de mim que por um instante me fez pensar: E se eu não pintasse o cabelo? Acatei o pensamento, guardei a bisnaga de tintura na gaveta e resisti a todos os momentos de ansiedade em frente ao espelho.
Logo descobri que não fui a única a deixar de pintar o cabelo durante a pandemia: em muitas casas, a raiz branca avançava na mesma medida em que a quarentena se prolongava. Foi um momento de dupla tensão: mundo em confinamento e mente conflitando com a decisão de ser grisalha.
Comecei a procurar livros, relatos e pesquisas que me explicassem por que o branco parecia ser a única cor proibida para os nossos fios. Quanto mais procurava, mais sentia falta de um espaço que dialogasse com o que eu estava vivendo.
Eu passava horas conversando sobre isso com outras pessoas. Em alguns momentos, surtava e queria voltar atrás. Em outros, admirava e salvava fotografias de mulheres grisalhas. Anotava frases que lia e gostava. Assistia a documentários sobre cabelos brancos. Lia todos os poucos livros que encontrava sobre o tema; me arrisquei até em uma obra publicada pela jornalista de moda francesa, Sophie Fontanel ̶ Une apparition (em uma tradução livre, Uma aparição).
Mesmo absorvendo menos da metade das palavras escritas em francês, entendi perfeitamente quando ela narra uma conversa que teve com uma desconhecida. Sophie estava no início da transição. A mulher desconhecida, que já tinha os cabelos todos brancos, lhe disse uma única frase e saiu andando: “O que dizem sobre cabelos brancos é mentira”.
Demorei a entender por que era mentira. Precisei entrevistar dezenas de mulheres — cientistas, psicólogas, amigas, cabeleireiras, grisalhas famosas na internet e até uma rabina. Li muitas pesquisas acadêmicas sobre padrões de beleza, envelhecimento, etarismo e genética. Consultei dados sobre a indústria da beleza. Surpreendi-me com as descobertas.
Em maio de 2021, comecei a escrever. Uma vez por semana, eu passava um dia inteiro escrevendo sobre as últimas conversas e achados. Como escritora, é assim que reflito sobre a minha própria experiência. Eu não queria convencer ninguém a parar de pintar os cabelos, só queria compartilhar o segredo que até então ninguém me contara: não tingir os fios também é uma opção.
Hoje, tudo o que um dia foi novidade me parece óbvio. Claro que a dificuldade em aceitar o grisalho está ligada à dificuldade em aceitar o envelhecimento. Claro que as histórias mudam dependendo de gênero, classe social e raça. Claro que é impossível não conectar o cabelo branco ao feminismo. Claro que fomos condicionadas a buscar uma beleza irreal — aliás, não seria uma beleza inventada, já que ninguém a tem naturalmente?
Entendi que a decisão de deixar o cabelo branco não é igual para todas. Vivo com conforto, me encaixo no padrão de beleza eurocêntrica, estou com 38 anos. Meu rosto não é tão esticado como nos meus 20 e poucos anos, mas não sinto medo de perder alguma oportunidade de trabalho por parecer mais velha, como sei que acontece com muitas mulheres.
Entretanto, esses assuntos só parecem óbvios hoje porque passei dois anos pesquisando. Ainda assim, sei que essa história não acaba aqui. Mesmo depois de colocar um ponto final neste livro, estou certa de que irei me surpreender com novos pontos de vista. A sociedade também vai mudar e seguir naturalizando os brancos. Assim espero.
Enquanto eu aguardava a passagem do tingido para o grisalho, comecei a perceber que mais pessoas ao meu redor passaram a aceitar os brancos. Algumas deixaram a tinta de lado; outras decidiram continuar tingindo os fios, mas estranhando menos as que não pintam. Passamos a aceitar melhor o que antes parecia inaceitável.
Como diz a antropóloga Mirian Goldenberg, “cada mulher que se liberta, está libertando muitas outras”. Essa liberdade, como também descobri nos últimos dois anos, tem muitos significados. Vai além da decisão sobre tingir ou não os fios de tempos em tempos; ela atravessa quem somos, como estamos no mundo e o que pensamos.
As próximas páginas são um diário do que vivi durante essa travessia. E ainda há quem diga que estamos falando só de cabelo branco.