A velha senhora e a enfermeira nova

A enfermeira nova acabou de sair. Não gostei muito dela, mas não é nada pessoal. Não costumo gostar de quem me faz falar do que quero esquecer. Muitas pessoas esquecem que essa história realmente aconteceu, mas eu sempre lembro que vim pra cá quando eu tinha catorze anos. Foi no dia 12 de dezembro de 1943.

Meu padrasto já estava aqui. Eu também tinha sido fichada pelo médico, então sabia que uma hora iam lá em casa me buscar. Algum dia, estacionaria na frente da nossa casa aquela ambulância verde-escuro toda fechada, sem uma única fresta e com uma cruz vermelha na lateral. Eu tinha medo dos policiais da saúde que sairiam de dentro dela. 

Esse dia só chegou porque uma amiga da escola me denunciou. Se ela tivesse ficado quieta, talvez eu não estivesse há tantas décadas nesse quarto que chamo de casa. Alcanço todos os móveis com menos de dois passos: minha cama de solteiro, minha mesa com quatro cadeiras, meus dois armários pequenos, meu micro-ondas e meus objetos bonitos que ficam em cima dos móveis e nas paredes.

Tenho cinco pinguins no topo da geladeira – ainda não tirei o plástico de um deles pra ver se dura mais tempo – e uma zebra inflável que ganhei de uma vizinha que já morreu. Na cadeira ao lado da porta, fica a minha boneca Suzy que adora colares, pulseiras e brincos de gente grande. Também gosto das minhas estatuetas de Jesus Cristo, mesmo sabendo que algumas passagens da Bíblia dizem que sou suja e pecadora. Quando percebo que está na hora de me confessar, leio algumas páginas, mas fujo de um trecho do Levítico. Pena que não adianta, pois já sei de cor.

“Quem ficar leproso, apresentando quaisquer desses sintomas, usará roupas rasga­das, andará descabelado, cobrirá a parte inferior do rosto e gritará: ‘Impuro! Impuro!’ Enquanto tiver a doença, estará impuro. Viverá separado, fora do acampamento.” 

Esse não é o único trecho da Bíblia que evito ler. Um capítulo de Lucas também fala de uma história sobre o encontro de Jesus com dez leprosos. Sei recitar até de trás pra frente.

“Um deles, quando viu que estava curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz. Prostrou‑se aos pés de Jesus e lhe agradeceu. Este era samaritano. Jesus perguntou: — Não foram purificados todos os dez? Onde estão os outros nove?” 

Os outros nove que não agradeceram somos nós. Todo mundo que viveu aqui sabe disso. Hoje, somos só oito pessoas nesse pavilhão do hospital colônia – um a menos do que a Bíblia diz. Mais de sessenta anos atrás, porém, éramos quase setecentos.

Perguntei pra enfermeira nova se ela era católica e se queria um biscoito. “Obrigada, mas não estou com fome”, ela respondeu, num tom educado. Insisti pra ver se ela tinha certeza e falei que não tinha sido feito com as minhas próprias mãos. Ela disse que tinha almoçado há pouco tempo, mas não sei se acredito nisso. 

Lembrei de uma das poucas vezes em que saí aqui da colônia para passear com a enfermeira antiga. Estávamos num restaurante a quilo quando ela encontrou uma amiga de infância. “Você já está trabalhando?”, a fulana perguntou. “No Santa Clara”, a enfermeira antiga respondeu. “Não é no leprosário, né? Então, aqui nessa mesa eu não me sento.” Acredita que ela realmente virou as costas e saiu? Dizem que o Santa Clara é fruto de desinformação, que as pessoas foram afastadas da sociedade por conta de uma cultura errada. Outros só dizem que o mundo é cruel. O mundo não, eu corrijo, cruel são as pessoas.

São essas mesmas pessoas que cuidam da nossa pequena cidade, por isso as coisas aqui andam bastante abandonadas. Até hoje, os últimos quilômetros da estrada são de barro e brita. Mas o pior é a placa que ajuda as pessoas a saberem que estão no caminho certo: “Hospital Sta. Clara e Complexo Penitenciário a 12 km”. 

Não acho que precisava dizer que estamos do lado da penitenciária de segurança máxima da cidade. De qualquer forma, ninguém consegue fugir. De um lado, estão as montanhas; do outro, o rio Atacares. Esse terreno de quase duzentos mil metros quadrados foi escolhido a dedo pelo governo Getúlio Vargas. É longe e isolado, mesmo perto da capital.

Nossos poucos visitantes, quando vêm, encontram uma cidade fantasma com casas em tons desbotados e descascados – são só vestígios de tinta verde, bege, azul, rosa. As paredes estão tomadas pela umidade, com manchas pretas que sobem do chão.

Pelo menos tem uma igreja no fim da rua. Ainda mais em frente, um cemitério. Sempre vou até lá fazer um dos meus passatempos preferidos: ler as lápides e lembrar quando meus amigos morreram. Alguns estão enterrados há muito tempo, como o pequeno Olímpio, que foi coroinha e viveu de 1936 a 1951; outros, como o Benício, estão lá desde o ano passado.

Também temos um campo de futebol, cercado por grades, com bancos do lado de fora. Era ali que nos reuníamos todas as terças-feiras, sessenta anos atrás, para ver nossos times jogarem, o Vasco e o Coalisão. Hoje não tem mais os gritos da torcida, mas pelo menos ainda dá pra entrar em campo. 

Triste é ver a decadência do pavilhão onde ficavam o nosso teatro e o nosso cassino. Já tem até grama e mato nascendo das paredes. Em uma das fachadas, alguém escreveu “ATENÇÃO NÃO ENTRE PERIGO” em letra vermelha. De certo era isso que falavam desse hospital colônia quando o governo o inaugurou com toda pompa, em 1940.

Essa foi a única solução que encontraram na época: nos isolar à força. Nem era uma ideia original, mas, sim, uma cópia do que já acontecia nos Estados Unidos e na Europa. Essa era a prioridade número um da política de saúde do governo Vargas. 

Mas nem adiantava querer ficar em casa porque o pessoal fugia de quem tivesse manchas brancas por dentro e rosadas por fora, ou alguma parte do corpo anestesiada ou dedos que começassem a entortar. Até hoje, minhas mãos parecem garras e não tenho os dois pés – perdi um deles quando o pilão de café caiu em cima (nem senti dor!); o outro empinou e pedi pro médico cortar.

Tem gente que me olha e pensa que ainda estou doente. Mas não estou, não. O papel aceita tudo. E ele diz que estou curada. Só tomo remédio pra coluna e pra pressão alta. Achei melhor avisar isso pra enfermeira nova, caso ela se esqueça de ver meu prontuário. 

Quando comecei a cansar de só falar de mim pra enfermeira nova, dei as três batidinhas na parede pra chamar a Bete, que mora do outro lado do quarto. Ela veio tão rápido que nem deu tempo de eu terminar de descascar minha tangerina. Pena que não animou a conversa. “Ih, a Ada já está te contando histórias tristes?”, ela disse assim que entrou. “Já falou sobre a moradora que fugiu de noite e engravidou?” 

Acabei contando que, quando o Doutor Valentino descobriu sobre a fuga combinada com a gravidez, essa nossa amiga pegou um ano e seis meses de cadeia. Expliquei que o Doutor Valentino foi o primeiro diretor aqui. Era um homem bom, mas, ao mesmo tempo, mau com quem desobedecia.

“O marido também foi pra cadeia”, bem lembrou a Bete. Achei melhor eu assumir a parte da história que a criança enfim nasce e levam direto pro preventório. Eles separavam os bebês dos pais na mesma hora pra não contaminar.

Comigo isso não aconteceu porque não tive filho. Fiquei casada por vinte e dois anos. A Bete também casou. Tivemos bolinho, almocinho, padre civil, tudo direitinho. Naquele tempo, os padres entravam aqui. Vinham com medo, mas eram obrigados.

Ela contou que fez a lua de mel lá na casa reservada para os casados. Fez tudo como manda o figurino. Já o meu figurino mandou diferente. Sabe onde nós fomos fazer lua de mel? Lá embaixo no galinheiro. Enquanto eu gemia, as galinhas cantavam!

Pena que a enfermeira nova acabou perguntando se a Bete teve filhos. Ela foi obrigada a contar que teve duas filhas aqui dentro, mas os guardas também levaram elas embora na mesma hora. “Só olhei de longe”, a Bete disse, contando que as mães não tinham direito nem de dar um beijinho na criança.

“Você sabe onde elas estão?”, perguntou a enfermeira nova, que, de repente, parecia detetive. “Não sei se estão vivas ou mortas”, respondeu Bete, com uma rispidez atípica. “Não sei se sabem alguma coisa de mim. Dizem que uma delas morreu. Não sei se é verdade ou não.” 

Pra alegrar a conversa, comecei a falar sem parar sobre as festas de antigamente da colônia. Contei dos blocos de carnaval, da banda formada pelos músicos doentes e das fantasias confeccionadas por nós mesmas. Expliquei que o diretor dava tecido, confete, lança-perfume e o que mais a gente pedisse. 

Continuei falando do dia de São João, que também era uma festa, e do aniversário de inauguração da colônia – um dia que poderia ser de luto, não de festa, mas não era eu quem criava as regras. Também contei sobre a nossa ansiedade esperando as sessões de cinema, assim como as três ou quatro ambulâncias verde-escuro que chegavam todos os dias cheinhas de novos pacientes.

A gente corria pro portão pra ver se chegava algum rapaz bonito. Às vezes, aparecia um que continuava bonito, mesmo leproso. Já aprendi que não se pode mais falar a palavra lepra. Mudaram o nome da doença pra hanseníase, mas não adiantou nada fazerem isso porque a lepra ainda está muito viva. Não constroem mais hospitais, mas ainda estamos aqui isolados.

A enfermeira nova também quis saber se hoje em dia a gente vai passear lá fora. Saio muito pouco. Quando saio, gosto de procurar cemitério. É a coisa mais bonita de se ver. Mas ela cruzou os limites quando perguntou se já tive vontade de morar em outro lugar, já que desde 1986 não somos mais obrigados a ficar aqui. 

Até parece que não sei que hoje é dia 5 de maio de 2024 ou que sou boba de fazer isso de novo. Já passei um tempo fora, uns seis anos no máximo, mas pedi pra voltar. Lá fora eu não tinha ninguém, nem profissão. Aqui eu acordo, tomo meu café, faço meu curativo, almoço, durmo um pouquinho às duas da tarde, bordo um pouco, vejo televisão.

Isso fez com que a enfermeira nova finalmente olhasse pro meu relógio de parede e percebesse que eram quase três da tarde. Mas, antes que ela viesse me dar um beijinho de tchau, quis garantir que ela não tinha entendido nada errado do que eu disse da minha vida ou do seu emprego novo. 

Então, continuei descascando minha tangerina e disse com a maior doçura que minha voz entrecortada por pigarros me permite: “Não existe nada real lá fora. Aqui é o meu lugar”.

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